segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

LIMÍTROFE


Recordo-me do médico falando sobre as duas anestesias que seriam aplicadas ao meu caso: peridural e geral. Tenho firme na memória um enfermeira cantarolando no centro cirúrgico: "ALELÚIA, PODEROSO É O SENHOR NOSSO DEUS" e um líquido amarelo claro (mais uma razão para abominar essa cor!!!) descendo em minha veia... e PUFF... acordo 5 horas depois com três cortes no abdômen, uma crise fortíssima de vômitos e a terrível certeza da fragilidade humana.
Hoje, 06 dias depois, descubro uma crescente e quase indomável reação que vou chamar aqui de PARTICULARIDADE DE COMPORTAMENTO: uma impaciência com uma série de coisas que antes não provocariam tanto em mim. Como forma de alívio terapêutico, escrevo, para salvar a mim mesma do meu próprio ataque, e os agentes que me tornam reativa.
Escrevo com a esperança de não ofender a ninguém, até mesmo porque aqueles que lerem esse meu desabafo, o farão por mero acaso, visto que não pretendo divulgá-lo, como já fiz com outros textos.
Escrevo com a compreensão do risco de, mais tarde, sentir aversão a mim mesma, pelo que rascunhei aqui, mas não é o caso, nesse momento...
Vamos as minhas particularidades:

Estou completamente impaciente com pessoas que se auto-promovem. Explico. Pessoas que falam de si mesmas na terceira pessoa, promovendo seus atos, discursos e habilidades. Será que elas não percebem que seus leitores/ouvintes estão assustados com essa oratória de SAIBAM O QUANTO EU SOU BOM?! Irritada, pergunto a mim mesma se sou assim e oro, quase clamo, que não me torne!

Sinto-me irritada com falta de originalidade. Claro que todos nós nessa terra recebemos influência de outros, em todos os aspectos de vida, mas acredito que podemos desenvolver nossa própria forma, Deus nos deu inteligência para tal. Quando me deparo com essa ausência de identidade original, retraio. Pessoas que começam a falar exatamente como outros, escrevem numa arte copista, desenvolvem seus tiques corporais e de expressão imitando gente com quem convivem... Lembro-me de estar numa reunião em terras nordestinas e ouvir o preletor falar com sotaque nordeste-americano. Estranheza a parte, indaguei a nacionalidade e a resposta foi:
- Ele fala assim porque recebeu a imposição de mãos de um grande pastor americano e desde então, tem esse sotaque.
Sinto pasmar-me até hoje.
Gente, construam quem vocês são!!! Afirmem gostar de algo porque realmente provaram e é bom, não porque outras pessoas disseram ser.
Pelo amor aos outros mortais pensantes, adquiram sua própria forma de escrita e fala, ainda que o processo pareça longo e demorado, originalidade é sempre um fator saudável.

Estou mais questionadora que o normal. Há dois dias faço perguntas a mim mesma e aos TRÊS sobre assuntos que antes não me atiçavam. E como todo questionamento remete a mudança, estou sobre solo perigoso e junto com o meu pensar interrogativo, clamo por resgate.

Sinto-me desvinculando, lenta e diariamente, de opiniões, pessoas e ambientes que antes eram significativos. A princípio, essa afirmativa causa espanto, mas dissecando-a, percebo que nem tudo o que eu julgava ser, é de fato, então...

Não ando suportando diplomacia comportamental. Por favor, não falem comigo querendo usar de indiretas para chegarem a um objetivo, sejam claros e obtenham estrutura para ouvirem respostas mais claras ainda. 

É isso, pelo menos hoje. Despeço-me de mim mesma e de minha PARTICULARIDADE DE COMPORTAMENTO PÓS ANESTESIA (andei lendo sobre os afetamentos psíquicos da mesma) com uma suave sensação de que escrever já executa seus efeitos.







domingo, 12 de fevereiro de 2017

Dúvidas

                                       
  
As paredes tomadas de frio tom
Esmaecem os dias festivos vestidos de cor.
Pontos que interrogam, que finalizam ou exclamam
Rascunham buscas e decisões.
O palácio está em meia luz...
Sem música, sem flores, quase desnudo de esperança.
O silêncio está tão repleto de gritos que ensurdeceria o que de longe passa e atenta.
Não se vê o paterno em límpido som,
Nem as núpcias da filha do Rei;
Quem precisa convencer o amigo a falar?
Quem insiste com o mentor?
Na sombra, um vulto pequeno,
Sobrecarregado e confuso
Clama pelo resgatador.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

RAIZ DE VENTO (?)




Somos, por natureza, seres "APEGADORES". O seio materno, nossa mãe (que é só nossa, grita a primeira infância!), nossos brinquedos, nossos amiguinhos, nossa cama, nosso quarto... a lista vai amadurecendo com o tempo (não se anime, estou sendo sarcástica), nosso primeiro amor, nossas escolhas, nosso LIVROS (pisando em terreno sagrado), nossas relações, nossos, nossas, meus, minhas, eu... enfim, um oceano de propriedades que nos tornam possuídores de "gentes", objetos, projetos e anseios.
Mal sabíamos nós, que quando sorvemos os primeiros segundos de vida nessa terra de peregrinação, seríamos ensinados a ABRIR MÃO voluntária, forçosa, alegre ou dolorosamente. Nenhum de nós manterá consigo TUDO o que já chamou de SEU. Fato!
Se é assim, porque sofremos?
Numa geração de valores alterados, TER é sinônimo de SUCESSO; mas os caminhadores não funcionam nessa vibração. Aprendemos que DIVIDIR é nobre; que repartir é COMPAIXÃO e que DAR é MANDAMENTO.
Ter TUDO, estar preso a NADA.
Outro aspecto aflitivo ao aprendizado é que em nossas vidas, assim como no KRONOS, existem estações: as flores em perfume nas primaveras serão tomadas pelas folhas secas dos outonos, a leveza e o frescor dos verões vestir-se-ão das cinzas e gélidas manhãs dos invernos. 
É assim, desde o GÊNESIS.
Claro que há um ponto ressonante em nós, filhos do ABA: estamos sob um governo. O mesmo que deu ordem ao caos determina nossas estações, bem como o que fica e o que deve sair. Talvez meus turbilhões escritos soem frios (por influência do último inverno pessoal), mas acredito na canção profética do RAIZ DE VENTO (ha ha ha, quem vai tentar enraizar o vento, meu povo?!):

DE TANTA COISA QUE PASSA COM A GENTE
O QUE FICA MESMO 
É O QUE É!


Então, permita-se PERDER.