terça-feira, 31 de janeiro de 2017

DIÁLOGOS COM BENTO E SUA REGRA



O simples fato de ter sido escrita no século sexto já exerce sobre mim um tipo de sedução literária.
A REGRA DE SÃO BENTO destinada a promover um impacto prático e profundo no aspecto de vivência comunitária trata do corriqueiro com uma força tão coloquial que tende a ser desprezada de início, contudo, em meio aos seus apontamentos, é possível ver emergir riquezas para esse nosso momento da história. Muito mais que profético, isso implica no fato de que, seja no século sexto, seja em nosso tempo, nós, humanos, continuamos nos esbarrando em problemas relacionais idênticos.
Logo no prólogo, Bento nos lembra:

"Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?" 
 Se, ouvindo, responderes: "Eu", dir-te-á Deus: "Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a". 
E quando tiveres feito isso, estarão meus olhos sobre ti e meus ouvidos junto às tuas preces, e antes que me invoques dir-te-ei: "Eis-me aqui". 

E a língua está presente e, com ela, todas as suas nocivas possibilidades destrutivas. Usando-a, disse Tiago, bendizemos o Autor e caluniamos a obra criada à Sua imagem e semelhança.
Triste, de tom funesto.
Compreensível é o desespero silencioso dos "pais do deserto", que partiram, antes de qualquer coisa, para se livrarem de si mesmos, digo, de seus homens adâmicos.
Espero que, ao sair do prólogo, encontre esperança no humano, porque, aqui dentro, já não a posso ver.






sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

LECTIO DIVINA


                                   
   
Talvez concordem comigo acerca de uma necessidade quase visceral de nostalgia.
Sim, sou uma dependente sem negativas.
Exulto com discrição quando sou tomada de nostalgias e meu senso de estar aqui é dilatado, percebo uma sensação de destino.
Apesar do prazer do vício, ele não é de fácil encontro e quando o toco, todos os meus sentidos são aguçados e novamente percebo o quanto preciso "nostalgiar". O tempo para e tenho a exata impressão que mudei de lugar, datas e pessoas...  aquela deliciosa estranheza do dependente que pode suprir sua necessidade.
Nesses últimos dias, vi-me assim. Primeiro pelo olhar de Frank Laubach em suas tentativas de PRATICAR A PRESENÇA DE DEUS, mas o êxtase maior veio de Kathleen Norris em seu CAMINHO PARA O CLAUSTRO. No primeiro, vejo minha incansável (e às vezes frustrada) busca, no segundo, vejo o lugar onde meu coração anseia habitar; seja em ruas de Agostinho de Hipona ou em mosteiros de Gregório, o Grande.
Outros lugares, datas e pessoas. Estou no pico da minha anfetamina literária.
Percebo-me feliz. Não a felicidade descoberta, mas a íntima, que me impulsiona a escrever linhas que somente dependentes como eu compreenderão; e no cruzamento entre as batalhas aqui travadas e a LECTIO DIVINA, meu interior tem a plena convicção de liberdade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

BENEFICIUM



De alguma forma sobrevivi à noite e ressurgi com o Dia...
(Emily Dickinson)


Estou lendo Kathleen Norris, minha leitura leve de férias. Leve no sentido de que, a cada linha, sinto-me envolvida por uma brisa literária de esperança e recomeço. Suavizou-me.
É aquela crescente sensação de que a NOITE tem em seu alforje uma lente de aumento e uma sovela sempre afiada, cortante e diretiva à nossa alma. Ela se veste assim, por isso é temida e sabe o que desperta. Pergunto-me (nauseada) se ela, a NOITE, regozija-se em suas canções entoadas?!
Suponho que sim.
O fato irrefutável e presente na NOITE é que ela sabe que não é permanente, ela sabe muito mais do que nós, suas vítimas recorrentes.
Então, abrigo meu esqueleto cansado na poltrona vermelha do meu lugar de pensar e entrego-me à descrição de Norris, que com excelente retórica (sim, eu posso vê-la falar...) descreve a mim mesma:

Não sei ao certo quando ou como a mudança se deu, mas agora, ao emergir da noite, tenho mais uma sensação de esperança do que de medo. Procuro sair o mais cedo possível e procurar pelos sinais da primeira luz do Dia, do vermelho pálido da aurora.

Ahhhh, os doces benefícios do claustro...