quarta-feira, 30 de março de 2016

GAIOLAS EM DESCONSTRUÇÃO


                                       


Entende-se por paradigma um conjunto de padrões a ser seguido, um tipo de referência inicial que torna-se modelo nas diferentes áreas da nossa vida; métodos e valores concebidos como base para algo; uma matriz.
Todos nós somos cercados de paradigmas religiosos que nos foram impostos ou ensinados; o grande problema é que alguns deles não representam em nada a verdade sobre o nosso Deus! São fortes, aparentemente corretos, bem fixados em nosso íntimo, mas nos distanciam de uma vida genuína e produtiva com a Trindade.
Geralmente, quando a manifestação Divina confronta nossos paradigmas, um sentimento de desconstrução nos toma e a dúvida entre avançar ou permanecer no que parece ser o modelo nos assombra.
Paradigmas podem ser destrutivos se não estiverem pautados na revelação das Escrituras e em quem Deus realmente é!
Ao longo da história da igreja, Deus vem quebrando a matriz desenvolvida pelo homem acerca de Seu caráter e obra e, maravilhados diante dessas narrativas percebemos que, todas as vezes que o homem permite-se ser desconstruído em suas referências impostas, criadas ou adquiridas, abraçando o real, genuíno e fecundo avançar de Deus na história, fatos singulares ocorrem...
Temos um judeu faminto no eirado de uma casa, ele está orando e esperando para saciar sua fome física. É tomado de êxtase, o céu se abre e toda sorte de animais quadrúpedes, répteis e aves lhe são apresentados com o seguinte imperativo:
- Levanta-te, mata e come!

O nosso homem é rápido em retrucar:
- De forma nenhuma, JAMAIS comi coisa alguma comum e imunda.

A voz o intercepta:
- Não consideres COMUM aquilo que foi tocado por Deus!

Um forte costume estava sendo desafiado, e obviamente, todas as vezes que Deus surge em imperativos, algo extraordinário nos aguarda adiante!
Conhecemos o desfecho: um Pedro perplexo (nem sei se conseguiu descer para almoçar...), um grupo de homens enviados para convida-lo à casa de um gentio, o Cornélio que promoveu uma reunião entre parentes e amigos íntimos, uma exposição fantástica sobre o Cristo, a visitação do Espírito Santo e o batismo de não judeus.
Claro, paradigma quebrado, questionamentos levantados! Pedro é convidado por seus irmãos judeus e colegas de ministério:
- Tomamos conhecimento que você entrou em casa de incircuncisos e comeu com eles!?

Um Pedro desconstruído explica com propriedade e conclui com excelência:
- Se Deus concedeu a esses o mesmo dom que a nós nos foi outorgado quando cremos em Jesus, QUEM SOU EU PARA QUE POSSA RESISTIR A DEUS?
Houve silêncio, acordo e alegria!

Paradigma quebrado, convicção e direção claras, homem obediente, Evangelho chegando até nós!






terça-feira, 22 de março de 2016

EXPATRIADO



O sentimento de estar deslocada do meu local de origem envolve meu coração e lentamente faz-me ter esperanças em um futuro que almejo... Quase inexplicável (e humanamente incompreensível) sentir saudades de um lugar onde nunca estive, mas que me impulsiona convicta, de achar nele, o berço de quem eu sou. 
Estremeço.
Alimento-me da feliz expectativa de ver, ouvir e falar com meus heróis (todos, absolutamente todos estão em Casa), os que me conduzem a vislumbres de dias melhores:
Quero andar com Calvino e ouvir sobre suas internas lutas em se tornar um reformado legítimo;
Em Lutero, perceber o homem do CATECISMO MENOR encontrando-se com a FONTE DE TODAS AS COISAS;
Com Edwards, tricotar sobre as FIRMES RESOLUÇÕES,
Abraçar Guyon e ser consolada com o mesmo consolo que a envolveu quando de volta em casa;
Sorrir com as histórias de Brainerd, maravilhar-me com Farel (e contar a ele que inspirou o nome do nosso filho mais velho), sentar-me nos campos de trigo com Carey e olharmos literalmente para o que um dia nos foi figurado.
Embebedar-me com o Cristo presente de Elizabeth e atentar-me aos detalhes da pequena chama acesa no coração de Evan Roberts, ainda em uma mina de carvão...
A PÁTRIA abriga todas as riquezas que anseio,  fonte perfeita de inspiração.
Para um coração expatriado como o meu, cujos heróis já não mais caminham nessa terra do peregrinar, lateja uma esperança:

Estaremos TODOS JUNTOS, eternamente deslumbrados com a BELEZA e a DIGNIDADE Daquele que é o PRINCÍPIO E FIM.




quinta-feira, 17 de março de 2016

POST TENEBRAS LUX


                                      
 
Damasco...
A rua chamada Direita abrigava a família de Judas. 
Era ainda dia quando alguns homens trouxeram pela mão um cidadão temido pelos do Caminho.
Diante deles estava Saulo, e em seus pertences, cartas para arrastar e prender os chamados cristãos.
Judas o abrigou, mas causou-lhe estranheza o fato de que durante aqueles três dias, seu "ilustre e temido" hóspede não comesse ou bebesse nada. E aquela cegueira repentina?
Seria isso a mão poderosa de Deus sobre um perseguidor?!
Judas apenas o ouvia balbuciar orações confusas, mas sinceras.
Era um homem em desconstrução.
Lá pelas tantas um barulho à porta arranca Judas de seus pensamentos sobre os fatos dos últimos dias. 
Ananias.
Não houve muito diálogo entre eles, Judas observou que Ananias estava tomado de um senso de urgência e direção que o tornava quase indomável, sem tempo a perder.
As últimas palavras de Cristo a Ananias foram diretas: "Vá até Saulo, Eu o escolhi para proclamar o meu nome entre autoridades, o povo judeu e gentio. Eu mesmo tornarei claro a ele o quanto lhe será necessário sofrer lamentavelmente em benefício do que Eu quero e Sou".
Num ato de profundo amor e obediência, Saulo foi envolvido na comunhão dos discípulos em Damasco; aqueles que eram de fato a razão inicial de sua viagem tornavam-se agora um apontamento de vida e vocação.

Genebra...
27 de agosto de 1535.
Guilherme Farel caminha apressado tendo o coração tomado de zelo pela reforma. Ele sabia que a partir daquele dia, algo se tornava mais concreto e palpável, não mais palavras sem retorno, mas um caminho a ser trilhado em direção à restauração da Igreja.
Ainda que os mosteiros fossem transformados em escolas e hospitais, houvesse liberdade de culto e reconhecimento das dimensões sociais do Evangelho, um desafio estabelecia-se: pregar o Evangelho e o novo estilo de vida a uma multidão de protestantes nominais, lutando por mudanças de vida e não só de rótulos. 
Finalmente Farel aproxima-se da estalagem e bate à porta do quarto.
Um jovem de seus vinte e poucos anos apresenta-se. 
Então aquele era Calvino? Parecia mais jovem do que Farel havia imaginado.
Em sua rápida e diretiva conversa, Farel não o convida delicadamente para associar-se a ele em seu ministério na cidade, ele apenas o ameaça:
- Se definitivamente você não se mudar para Genebra, Deus amaldiçoará seus estudos.
Calvino, amedrontado pelo homem obstinado à sua frente (com o dobro de sua idade), cedeu, compreendendo que a MÃO DIVINA, e não aquele homem, o estava mantendo naquele lugar por algum propósito ainda desconhecido.
Em janeiro de 1537, Calvino pôs as mãos no arado.

Dois homens, dois momentos singulares envolvendo outras pessoas.
Duas histórias em tempos e lugares diferentes.
Um mesmo Deus escrevendo num só livro: façam avançar o meu Reino.
POST TENEBRAS LUX, depois da escuridão, luz.