quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

PEDRAS, CONHECIDAS PEDRAS.



"E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo. 
E Saulo consentia na sua morte."


A violência da morte de Estevão, é sem dúvida, um aspecto a refletir, porém, os detalhes que o cercaram até que o fim de seus dias nessa terra o abraçasse me fizeram pensar nessa manhã.

Ele foi lançado para fora de sua cidade. 
Uma cidade passa pela terra do residir, de sentir-se cidadão, de ser incluído, de possuir aqui um lugar para voltar.
Isso lhe foi arrancado.

Arrancado também lhe foi o direito de uma morte natural. 
O apedrejamento é um maneira lenta de morrer pelo fato de que, durante o ato, a pessoa não perde a consciência enquanto suporta os fortes golpes.
É cruel imaginar que Estevão sentiu cada golpe contra ele desferido. Talvez de mãos que ele próprio nominava por conhecimento, por convivência, por adorar juntos no templo.
Ele não se encontrava num estado de ausência de percepção, ele via, sentia, sabia. O seu silêncio não deve ser traduzido como inconsciência, foi uma escolha pessoal ante a situação.

As Escrituras indicam que ele ficou exposto diante de todos, sua nudez foi abusiva tanto quanto a sua forma de morrer.
Arrancaram suas vestes e impuseram sobre ele desproteção, exposição e vergonha.
As pedras feriram o corpo de Estevão, mas certamente, feriram o seu interior; visto que os que as   arremessavam eram pessoas participantes de sua religião.
Não eram estranhos,
Não eram contrários - num primeiro momento,
Eram compatriotas, eram irmãos (?)
Suas roupas colocadas aos pés de Saulo - mais que tecidos cerzidos - faziam parte de quem ele era. 
Sua dignidade,
Sua intimidade,
Sua história de vida,
Suas escolhas e investimentos,
Suas alegrias e lágrimas,
Suas crenças,
Sua causa.
Tudo arrancado dele e depositado aos pés de outro...
Com que olhos esse "outro" enxergou tais roupas? 
Com olhos de consentimento.

Estevão traz silêncio a minha alma. 
Há muito a refletir. Fugindo de tornar-me amarga, arranco dele a sensação de que tudo isso é temporal, de que a proposta é eterna, que é durante o ato de morrer que meus olhos, fitos no CÉU, oferecem-me a mais nobre visão jamais alcançada e que é possível sim, que tudo o que acreditei trazer segurança, sensação de lar e confiabilidade podem, rapidamente, tornar-se em pedra.

Então, UMA SÓ ORAÇÃO envolve o meu espírito:
ABA, ABATE AS MINHAS PEDRAS PESSOAIS, tire-as de minhas mãos, não permita, sob nenhum pretexto, que eu impute a ninguém a dor que hoje reside em meu coração.






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