domingo, 25 de outubro de 2015

Esquinas...

                                    

A rua já dormia em seus comércios e lidas.
Pouca gente, pouca luz, hora avançada.
Um desfile do sofrer começa a surgir, mulheres de todas as idades, nudez quase exposta, maquiagens fortes para disfarçar a dor de mais uma noite...
Objetos numa vitrine de caos.
Posso ver uma jovem, em seus 20 e poucos anos, entorpecida, andando como alguém que há muito não sabe mais para onde ir, perdida em suas mazelas. Passo por ela, junto à pele morena e o rosto envelhecido, diminuta roupa acena uma crescente abdominal que grita a plenos pulmões:
- Em alguns dias serei mãe.
Mais adiante, numa esquina pálida, dois travestis. Nossos olhares se cruzam e por frações de segundo imagino "a história por trás da máscara", as dores que se amontoam dilacerantes no corpo já modificado, a fome, a ausência, a falta do que esperar.
Minha atenção cai sobre quatro meninas. 
Certamente, garotas que poderiam ser minhas filhas. Corpos ainda jovens, riso alto e aquela pitada de ousadia comum a essa idade. Uma delas, a líder, vestida de um vermelho vivo que acompanha a cor de seus cabelos pintados, levanta-se e põe-se a andar gritando palavrões e oferecendo sua raiva a qualquer um que se aproxime...
É seguida pelas outras, um mesmo caminho, um mesmo cansaço, o mesmo morrer.
Sou adoecida pela dor do ABA, num extravasar de lágrimas e preces percebo a GRAÇA em passos largos por essas esquinas. Vejo o Cristo caminhante, o mesmo que acolheu Madalena e iniciou a conversa com a samaritana, o Cristo que permitiu-se ser tocado pelas "mãos comprometidas" de uma conhecida pecadora.
O Cristo que ama,
O Cristo que busca,
O Cristo que inclui.
E eu? 
Como reagir a verdade de que TODOS NÓS, sem nenhuma exceção, já moramos em esquinas e que em algum momento da história o BANQUETE DA GRAÇA evidenciou-se, vitimando-nos, alcançando-nos, justificando-nos.
Um lamento verbalizado atravessa o meu baço. 
Eu sei exatamente o que fazer!
A gestante sucumbindo em desespero, o travesti que me olha com ausências, a jovem "ruiva" que faminta não sabe buscar, agora fazem parte de mim. 
Que Cristo, a GRAÇA ENCARNADA, tatue-os em mim, no exato lugar onde um dia o MEU BANQUETE ACONTECEU.




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